sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Me alugo para sonhar

Gabriel García Márquez

Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo. Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro. Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça.

Os alegres voluntários cubanos, com a ajuda dos bombeiros, recolheram os destroços em menos de seis horas, trancaram a porta que dava para o mar e habilitaram outra, e tudo tornou a ficar em ordem. Pela manhã, ninguém ainda havia cuidado do automóvel pregado no muro, pois pensava-se que era um dos estacionados na calçada. Mas quando o reboque tirou-o da parede descobriram o cadáver de uma mulher preso no assento do motorista pelo cinto de segurança. O golpe foi tão brutal que não sobrou nenhum osso inteiro. Tinha o rosto desfigurado, os sapatos descosturados e a roupa em farrapos, e um anel de ouro em forma de serpente com olhos de esmeraldas. A polícia afirmou que era a governanta dos novos embaixadores de Portugal. Assim era: tinha chegado com eles a Havana quinze dias antes, e havia saído naquela manhã para fazer compras dirigindo um automóvel novo. Seu nome não me disse nada quando li a notícia nos jornais, mas fiquei intrigado por causa do anel em forma de serpente e com olhos de esmeraldas. Não consegui saber, porém, em que dedo o usava.

Era um detalhe decisivo, porque temi que fosse uma mulher inesquecível cujo verdadeiro nome não soube jamais, que usava um anel igual no indicador direito, o que era mais insólito ainda naquele tempo. Eu a havia conhecido 34 anos antes em Viena, comendo salsichas com batatas cozidas e bebendo cerveja de barril numa taberna de estudantes latinos. Eu havia chegado de Roma naquela manhã, e ainda recordo minha impressão imediata por seu imenso peito de soprano, suas lânguidas caudas de raposa na gola do casaco e aquele anel egípcio em forma de serpente. Achei que era a única austríaca ao longo daquela mesona de madeira, pelo castelhano primário que falava sem respirar com sotaque de bazar de quinquilharia. Mas não, havia nascido na Colômbia e tinha ido para a Áustria entre as duas guerras, quase menina, estudar música e canto. Naquele momento andava pelos trinta anos mal vividos, pois nunca deve ter sido bela e havia começado a envelhecer antes do tempo. Em compensação, era um ser humano encantador. E também um dos mais temíveis.

Viena ainda era uma antiga cidade imperial, cuja posição geográfica entre os dois mundos irreconciliáveis deixados pela Segunda Guerra Mundial havia terminado de convertê-la num paraíso do mercado negro e da espionagem mundial. Eu não teria conseguido imaginar um ambiente mais adequado para aquela compatriota fugitiva que continuava comendo na taberna de estudantes da esquina por pura fidelidade às suas origens, pois tinha recursos de sobra para comprá-la à vista, com clientela e tudo. Nunca disse o seu verdadeiro nome, pois sempre a conhecemos com o trava-língua germânico que os estudantes latinos de Viena inventaram para ela: Frau Frida. Eu tinha acabado de ser apresentado a ela quando cometi a impertinência feliz de perguntar como havia feito para implantar-se de tal modo naquele mundo tão distante e diferente de seus penhascos de ventos do Quindío, e ela me respondeu de chofre:

— Eu me alugo para sonhar.

Na realidade, era seu único ofício. Havia sido a terceira dos onze filhos de um próspero comerciante da antiga Caldas, e desde que aprendeu a falar instalou na casa o bom costume de contar os sonhos em jejum, que é a hora em que se conservam mais puras suas virtudes premonitórias. Aos sete anos sonhou que um de seus irmãos era arrastado por uma correnteza. A mãe, por pura superstição religiosa, proibiu o menino de fazer aquilo que ele mais gostava, tomar banho no riacho. Mas Frau Frida já tinha um sistema próprio de vaticínios.

— O que esse sonho significa — disse — não é que ele vai se afogar, mas que não deve comer doces.

A interpretação parecia uma infâmia, quando era relacionada a um menino de cinco anos que não podia viver sem suas guloseimas dominicais. A mãe, já convencida das virtudes adivinhatórias da filha, fez a advertência ser respeitada com mão de ferro. Mas ao seu primeiro descuido o menino engasgou com uma bolinha de caramelo que comia escondido, e não foi possível salvá-lo.

Frau Frida não havia pensado que aquela faculdade pudesse ser um ofício, até que a vida agarrou-a pelo pescoço nos cruéis invernos de Viena. Então, bateu para pedir emprego na primeira casa onde achou que viveria com prazer, e quando lhe perguntaram o que sabia fazer, ela disse apenas a verdade: "Sonho". Só precisou de uma breve explicação à dona da casa para ser aceita, com um salário que dava para as despesas miúdas, mas com um bom quarto e três refeições por dia. Principalmente o café da manhã, que era o momento em que a família sentava-se para conhecer o destino imediato de cada um de seus membros: o pai, que era um financista refinado; a mãe, uma mulher alegre e apaixonada por música romântica de câmara9 e duas crianças de onze e nove anos. Todos eram religiosos, e portanto propensos às superstições arcaicas, e receberam maravilhados Frau Frida com o compromisso único de decifrar o destino diário da família através dos sonhos.

Fez isso bem e por muito tempo, principalmente nos anos da guerra, quando a realidade foi mais sinistra que os pesadelos. Só ela podia decidir na hora do café da manhã o que cada um deveria fazer naquele dia, e como deveria fazê-lo, até que seus prognósticos acabaram sendo a única autoridade na casa. Seu domínio sobre a família foi absoluto: até mesmo o suspiro mais tênue dependia da sua ordem. Naqueles dias em que estive em Viena o dono da casa havia acabado de morrer, e tivera a elegância de legar a ela uma parte de suas rendas, com a única condição de que continuasse sonhando para a família até o fim de seus sonhos.

Fiquei em Viena mais de um mês, compartilhando os apertos dos estudantes, enquanto esperava um dinheiro que não chegou nunca. As visitas imprevistas e generosas de Frau Frida na taberna eram então como festas em nosso regime de penúrias. Numa daquelas noites, na euforia da cerveja, sussurrou ao meu ouvido com uma convicção que não permitia nenhuma perda de tempo.

— Vim só para te dizer que ontem à noite sonhei com você — disse ela. — Você tem que ir embora já e não voltar a Viena nos próximos cinco anos.

Sua convicção era tão real que naquela mesma noite ela me embarcou no último trem para Roma. Eu fiquei tão sugestionado que desde então me considerei sobrevivente de um desastre que nunca conheci. Ainda não voltei a Viena.

Antes do desastre de Havana havia visto Frau Frida em Barcelona, de maneira tão inesperada e casual que me pareceu misteriosa. Foi no dia em que Pablo Neruda pisou terra espanhola pela primeira vez desde a Guerra Civil, na escala de uma lenta viagem pelo mar até Valparaíso. Passou conosco uma manhã de caça nas livrarias de livros usados, e na Porter comprou um livro antigo, desencadernado e murcho, pelo qual pagou o que seria seu salário de dois meses no consulado de Rangum. Movia-se através das pessoas como um elefante inválido, com um interesse infantil pelo mecanismo interno de cada coisa, pois o mundo parecia, para ele, um imenso brinquedo de corda com o qual se inventava a vida.

Não conheci ninguém mais parecido à idéia que a gente tem de um papa renascentista: glutão e refinado. Mesmo contra a sua vontade, sempre presidia a mesa. Matilde, sua esposa, punha nele um babador que mais parecia de barbearia que de restaurante, mas era a única maneira de impedir que se banhasse nos molhos. Aquele dia, no Carvalleiras foi exemplar. Comeu três lagostas inteiras, esquartejando-as com mestria de cirurgião, e ao mesmo tempo devorava com os olhos os pratos de todos, e ia provando um pouco de cada um, com um deleite que contagiava o desejo de comer: as amêijoas da Galícia, os perceves do Cantábrico, os lagostins de Alicante, as espardenyas da Costa Brava. Enquanto isso, como os franceses, só falava de outras delícias da cozinha, e em especial dos mariscos pré-históricos do Chile que levava no coração. De repente parou de comer, afinou suas antenas de siri, e me disse em voz muito baixa:

— Tem alguém atrás de mim que não pára de me olhar.

Espiei por cima de seu ombro, e era verdade. Às suas costas, três mesas atrás, uma mulher impávida com um antiquado chapéu de feltro e um cachecol roxo, mastigava devagar com os olhos fixos nele. Eu a reconheci no ato. Estava envelhecida e gorda, mas era ela, com o anel de serpente no dedo indicador.

Viajava de Nápoles no mesmo barco que o casal Neruda, mas não tinham se visto a bordo. Convidamos para mulher a tomar café em nossa mesa, e a induzi a falar de seus sonhos para surpreender o poeta. Ele não deu confiança, pois insistiu desde o princípio que não acreditava em adivinhações de sonhos.

— Só a poesia é clarividente — disse.

Depois do almoço, no inevitável passeio pelas Ramblas, fiquei para trás de propósito, com Frau Frida, para poder refrescar nossas lembranças sem ouvidos alheios. Ela me contou que havia vendido suas propriedades na Áustria, e vivia aposentada no Porto, Portugal, numa casa que descreveu como sendo um castelo falso sobre uma colina de onde se via todo o oceano até as Américas. Mesmo sem que ela tenha dito, em sua conversa ficava claro que de sonho em sonho havia terminado por se apoderar da fortuna de seus inefáveis patrões de Viena. Não me impressionou, porém, pois sempre havia pensado que seus sonhos não eram nada além de uma artimanha para viver. E disse isso a ela.

Frau Frida soltou uma gargalhada irresistível. "Você continua o atrevido de sempre", disse. E não falou mais, porque o resto do grupo havia parado para esperar que Neruda acabasse de conversar em gíria chilena com os papagaios da Rambla dos Pássaros. Quando retomamos a conversa, Frau Frida havia mudado de assunto.

— Aliás — disse ela —, você já pode voltar para Viena.

Só então percebi que treze anos haviam transcorrido desde que nos conhecemos.

— Mesmo que seus sonhos sejam falsos, jamais voltarei — disse a ela. — Por via das dúvidas.

Às três, nos separamos dela para acompanhar Neruda à sua sesta sagrada. Foi feita em nossa casa, depois de uns preparativos solenes que de certa forma recordavam a cerimônia do chá no Japão. Era preciso abrir umas janelas e fechar outras para que houvesse o grau de calor exato e uma certa classe de luz em certa direção, e um silêncio absoluto. Neruda dormiu no ato, e despertou dez minutos depois, como as crianças, quando menos esperávamos. Apareceu na sala restaurado e com o monograma do travesseiro impresso na face.

— Sonhei com essa mulher que sonha — disse.

Matilde quis que ele contasse o sonho.

— Sonhei que ela estava sonhando comigo disse ele.

— Isso é coisa de Borges — comentei.

Ele me olhou desencantado.

— Está escrito?

— Se não estiver, ele vai escrever algum dia — respondi. — Será um de seus labirintos.

Assim que subiu a bordo, às seis da tarde, Neruda despediu-se de nós, sentou-se em uma mesa afastada, e começou a escrever versos fluidos com a caneta de tinta verde com que desenhava flores e peixes e pássaros nas dedicatórias de seus livros. À primeira advertência do navio buscamos Frau Frida, e enfim a encontramos no convés de turistas quando já íamos embora sem nos despedir. Também ela acabava de despertar da sesta.

— Sonhei com o poeta — nos disse.

Assombrado, pedi que me contasse o sonho.

— Sonhei que ele estava sonhando comigo disse, e minha cara de assombro a espantou.

— O que você quer? Às vezes, entre tantos sonhos, infiltra-se algum que não tem nada a ver com a vida real.

Não tornei a vê-la nem a me perguntar por ela até que soube do anel em forma de cobra da mulher que morreu no naufrágio do Hotel Riviera. Portanto não resisti à tentação de fazer algumas perguntas ao embaixador português quando coincidimos, meses depois, em uma recepção diplomática. O embaixador me falou dela com um grande entusiasmo e uma enorme admiração. "O senhor não imagina como ela era extraordinária", me disse. "O senhor não resistiria à tentação de escrever um conto sobre ela". E prosseguiu no mesmo tom, com detalhes surpreendentes, mas sem uma pista que me permitisse uma conclusão final.

— Em termos concretos — perguntei no fim —, o que ela fazia?

— Nada — respondeu ele, com certo desencanto. — Sonhava.

Março de 1980

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O céu já clareou
já é manhã
a chuva já passou


Memórias vem e vão
Saudades de um verão
e toda imensidão


Vamos diferente
hoje e amanhã
a vida pela frente


Ah vida que me resgata
me toca a pele
me puxa a alma

Vã sina
que réu carrego
a vida ensina
minha força

Letra: Evandro L! Melo

   by evandrospfc

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Oração: Sentidos e sentimentos



Desperto cedo, com os berros frenéticos do despertador, exímio cumpridor do seu dever. Tento em vão ganhar alguns minutos a mais de sono. A força externa que me chama a levantar e olhar o dia é mais forte do que o pequeno ser preguiçoso que habita em mim me pedindo para continuar horizontal.

Sigo na rotina da preparação diária, sem me cansar dela.
Água no fogão, coador com pó de café a postos, esperando para se exibir em aroma formidável.

Prestes a começar minha primeira oração do dia, dou um gole no café que acabara de coar e nada me vem à mente senão:
-Pai obrigado por este café amargo. Obrigado pelo aroma que entra pelas narinas e invade a alma. Obrigado pelas sensações que sinto ao notar o dia que nasce, belos e únicos, como são as manhãs de verão.
Obrigado por estar presente em tudo isso.

Amém.
 
Evandro L! Melo

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Plantava sonhos

Plantava sonhos, como quem planta vida. Vida que passa de mansinho, em seu tempo próprio. Os sonhos eram plantados, um a um semeado, em terra fofa, previamente cuidada. Havia de ser a casa certa onde o sonho repousasse e desse frutos.

Junto aos sonhos plantava também promessas, embora muitas vezes alertado de que era preciso cuidado ao se plantar promessas, elas crescem rapidamente e se multiplicam, tornando muito difícil a colheita.

O plantio de sonhos e promessas até fazia bem, desde que feito com parcimônia e acompanhado bem de pertinho. Muitos se perdiam em seus próprios sonhos e eram sufocados pelas promessas semeadas por suas mãos.

Tanto tempo passava plantando sonhos e promessas, que não lhe sobrava tempo de colher seus frutos. Ficou só na promessa.

Evandro L! Melo
www.SobrePensar.tumblr.com

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

tão doce

O doce nome de Jesus
é de graça, pela graça
é seguro, tão seguro
é perfume, é encanto
coberta que envolve e aquece
alegria que se expressa no sorriso
é paz, luz na escuridão
é paz, água no sertão
é sol no meio da noite
é doce, tão doce.

Evandro L! Melo

sábado, 1 de janeiro de 2011

Votos sinceros

Tão eficaz quanto um romance platônico, são esses votos sinceros de passagem de ano.

Românticos, nos abraçamos, trocamos palavras de sinceros desejos, enviamos emails aos amigos distantes, mensagens reduzidas no celular e twitter, sempre desejando paz, amor, alegria, saúde...

Mas assim como o amor platônico, tudo isso não desce à atmosfera da vida real, não chega à verdade do toque. Tudo não passa de uma sincera superficialidade.

O tempo, a vida, não tem demarcadores, é infinita, contínua e não se deixa perceber por calendários. O calendário nada mais é que uma linha imaginária no tempo infinito.
É uma maneira que criamos para controlar e ordenar algo feito para ser livre, radicalmente livre e indomesticável.

Ao desejarmos conceitos tão abrangentes como paz, amor, felicidade na passagem de um ano ao outro, estamos expressando nossa incapacidade de fazer acontecer.

O ano será o que fizermos dele, e se não descermos esses conceitos sempre tão na superfície, para nossas vidas, para nosso cotidiano, não passam de espumas ao vento, bolhas de sabão, não passam de nada.

Desejar da maneira como fazemos é delegar ao acaso que seja dono do mundo. É deixar ao destino que nos controle e que faça acontecer.

Descer estes votos para o dia a dia significa, aí sim, que eu desejo que o ano seja feliz, de paz e alegria e que para isso, amigo, vou me esforçar para que aconteça.
Me comprometo com você, amado, que vou buscar viver bem para ter saúde, vou procurar harmonia, nem que para isso tenha que ceder em alguns pontos, para que tenhamos uma vida de alegria.

E para quando tudo fugir do meu controle, deixo então esses momentos para o acaso, deixo ao destino.

Desejo, portanto, desejar menos e agir mais.

Feliz 2011! (é para isso que vou me esforçar)

Evandro L! Melo

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Na noite de Natal eu vi Jesus

"O Rei responderá: 'Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram..." (Mat 25:31-46).

Na noite de Natal eu vi Jesus. É disso que se trata este conto pós Natal. Na noite de Natal eu vi o motivo da festa, Jesus.

Não foi em meio à minha reunião com a família, onde Ele certamente também estava. Também o senti neste jantar, na farta mesa que graças a Ele tivemos, na alegria que emanava em gritos e risos das crianças, nos abraços e na comunhão, também o senti em tudo isso.

Mas foi voltando para casa, passada a virada, a chegada do Natal, que eu vi Jesus. Estava perto de casa, na forma como Ele costuma vir, como a menor das criaturas.
Estava como um mendigo, acampado na rua debaixo, dormindo sob madeiras que improvisavam uma casa. Sorte a Dele que era uma noite de calor, sofria menos assim.

Jesus que há muito tempo veio como uma criança indefesa, nascida pobre num manjedoura sujo, úmido que fedia a bicho, agora dormia no chão duro, desprotegido numa rua suja.

São dias difíceis este que Jesus está passando, talvez pela data, que deveria ser de alegria, mas que há tempos não encontra motivos para comemorá-la, talvez por isso Jesus nesta noite não suportou a dor e se entregou a uma garrafa de cachaça. A cachaça fora sua companheira nesta noite de Natal, sequer um cachorro matusquela o acompanhou.

Pobre Jesus.

Jesus que tem um nome, uma história, uma vida, como qualquer um de nós, agora estava largado, esquecido, apagado.

Pobre Jesus.

Mas o Natal existe, Natal que é nascer, fez nascer em mim compaixão ao passar por Ele e ao menos preparar uma cesta para que Jesus tivesse uma ceia de Natal.

A cesta não era tão farta quanto meu jantar, mas foi o que eu acho que pude fazer de melhor. Um chocotone delicioso que estava guardando para comer qualquer dia desses, uma garrafa (a última) de coca-cola geladinha, alguns salgadinhos e um livrinho para distrair Jesus.
Dei o que eu tinha, não o que me sobrou.

Preparei tudo com carinho e ainda na noite de Natal fui até a casa de Jesus. Não quis incomodar Ele que dormia tranquilamente.
Sem fazer barulho, deixei a cesta ao seu lado, e disse: - Deus o abençoe meu caro.

Voltei para casa pensando em Jesus. Feliz por ter visto Jesus, triste por ter visto Jesus naquela situação.

O Natal deste ano fez sentido pra mim. Algo em mim nasceu.


Evandro L! Melo