sexta-feira, 12 de julho de 2013

A primeira poesia

A primeira poesia que ouvi nem era poesia. Bom, era na essência mas não nasceu poesia.
Tampouco eu, uma criança na primeira série do primário, sabia o que era uma poesia.
Mas desde menor ainda já sabia admirá-las, mesmo não sabendo que as admirava.
A primeira poesia que ouvi, jamais esqueci. Sem nenhum esforço para decorá-la. Poesias não são decoradas, são tatuadas na pele da alma.

A primeira poesia que tenho consciência foi dita pela professora Carmem na a
ula de ciências.
Foi curta, simples e direta. E bela, não esqueçamos da beleza.

A primeira poesia da minha vida de tantas outras, me abriu os olhos como uma criança diante do recém surgido Papai Noel. Me despertou os sentidos, me acordou de um sentimento de que as aulas não serviam para muita coisa senão para receber elogios ou broncas em casa. Me fez perceber que há sentido nas palavras.

A primeira poesia de minhas lembranças, ouvi quando pequeno, na aula de ciências pela boca da professora Carmem (ou era Lúcia? Telma, talvez), foi simples e direta e me ensinou a respirar vida.
E tudo isso por uma simples lição contida numa curta frase: O vento, é o ar em movimento.

A primeira poesia de minha vida me colocou em movimento. Como o vento.

Fim.



evandro l! melo

sexta-feira, 7 de junho de 2013

ENCONTRO MARCADO...


…Marcado por ele, porque eu mesmo não me lembrava de ter pedido nada disso.

Foi essa semana, precisei fazer uma tomografia computadorizada. Sabe aquele exame em que te colocam em um lugar que não foi bem projetado para você caber nele? Algum engenheiro engraçadinho fez aquilo de propósito só para se divertir à custa do sofrimento alheio.
Pois lá estava eu, uma espécie de múmia moderna, nariz rente ao teto do tomógrafo, me concentrando para não dar espaço (rá espaço!) para a claustrofobia, quando ainda de olhos fechados escuto alguém entrar.
- Oi.
Puta susto! E eu sem nem poder me mexer pra não atrapalhar o exame e ter que repetir tudo de novo.
- Hein? Quem é você, mas como, ei...
- Calma ae, você que me chamou.
- Chamei? Quem é você, mas como que...
- Sou Deus, Pai, Emanuel, Jesus, Senhor, Rei {haha} e todos esses nomes que vocês vão me dando.
- Mas.. {caramba} comé que você, err o SENHOR...
- Chama de você, chega de frescura.
- ...Tá, comé que o Senh…Você cabe aqui dentro?
- O que é caber? Eu sou o eu sou, esqueceu? Eu não 'caibo', eu apenas existo.
- Mas tem a lei de Newton, você sabe, dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço e bem, aqui mal há espaço para um.
- Eu sou além do espaço. Newton… Menino legal, mas muito obcecado pelo que apenas podia ver e tocar.
- Mas é que...
- Mas é que nada. Você me pediu esse encontro, vamos papear antes que o exame acabe.
- Ah então, eu não te chamei não, {Só se foi aquele dia que bebi um pouco a mais} chamei?
- Opa, eu não costumo aparecer sem ser convidado.
- …
- Você me chamou quando tinha 8 anos, chamou de papai do céu e tudo.
- E você só vem agora?
- Sempre é agora.
- Hein? Faz uns 22 anos isso, nem me lembrava mais. Tanto tempo pra você chegar. Agenda cheia?
- Tempo… Eu sou além do tempo. Sou eterno, esqueceu? Você que é preso ao tempo, não eu.
- E aquele papo de Einstein, relatividade, tempo-espaço...
- Ah, o Alberto. Sonhador, mais que Newton é verdade, mas ainda sim desconhecia o eterno. Bons meninos viu, se divertem juntos na eternidade.

Eu que nunca fui lá muito esclarecido, fiquei ainda mais confundido com tudo aquilo ali. Será que o pessoal (os sádicos que ficam na salinha te vendo sofrer de claustrofobia) estavam sabendo daquele encontro surreal? Ninguém vinha me buscar.
Aquilo durou horas, dias talvez. Queria dar uma olhadela no relógio para conferir, mas havia deixado no armário junto dos demais pertences, e mesmo que estivesse usando, não conseguiria mexer os braços.
Eu não podia me mexer e engraçado, não parecia estar mexendo nem a boca para falar.
E lá continuava ele, todo leve e solto, rindo, o que imaginei ser da minha cara de espanto.

- Quando foi que criou o mundo hein?
- Ontem. {hehe} O que é quando, rapaz?
- Caramba, não vou ensinar Deus. Vem cá, e essa monte de porcaria por aí? Violência, fome e...
- Ah,isso não é coisa minha não. Não me meta nessa, isso é coisa de vocês sabichões.

Rapaz, que liso que era esse simpático senhor. Senhor? Não era um senhor, era, era… Sei lá, não consegui definir, era tudo ao mesmo tempo que não era nada que eu conhecesse.

Eu queria, sabia que queria, papear sobre outras coisas, mas a cabeça parecia não funcionar bem. Tentava bolar alguma pergunta inteligente, mas nenhuma parecia ser.
Ia me esforçar mais um pouco até que fui interrompido pelo barulho de motor elétrico em funcionamento e o movimento repentino da maca, me puxando para fora daquele cú, ops, do tomógrafo.

- Bom meu amigo, foi bom papear contigo. Me chame sempre que quiser que eu apareço. - disse Deus enquanto a maca ia lentamente se movendo.
- Puxa, passou tão rápido. Não deu tempo de perguntar quase nada.
- {hehe} E você ainda preocupado com tempo e espaço.
- Grande abraço Deus, fica na paz e vai com… Com você mesmo {haha}.
- Pode deixar, e fica comigo {hehe}.
***

evandro l! melo
@evandrolmelo
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terça-feira, 30 de abril de 2013

sábado, 20 de abril de 2013

limpeza à dedo


As avós são seres superiores, celestiais. As minhas são.
Uma espécie de ser superior que chegou a este status depois de vencer longos invernos, verões sem sombra, primaveras sem flores e outonos de ventos gelados. Superaram as pedras e buracos da vida, erraram o suficiente com os filhos para agora apenas acertarem com os netos.
Assim são as avós. As minhas são, que fique claro. Não sei como são as suas, mas se não são assim, a culpa é certamente sua.

Hoje me recordo de olhar pra cima, mãos dadas enquanto esperava pelo ônibus, que eu admirava aquela pessoa cheia de rugas e um belo coque na cabeça. No auge dos meus 7 anos eu apenas olhava.

Passo pelo mesmo bairro, (Jordanópolis, um bairro residencial em São Bernardo) e já não sinto a mesma atmosfera que antes. É a idade, eu sei, a observação da criança é mais pura, mais inocente, tudo é poesia e tudo tem graça.

Ali da casa da vó Lola, o tempo a passar vagarosamente, saíamos a passos lentos de mãos dadas caminhando em direção ao ponto, a cerca de 500m dali.
Aqueles 10 minutinhos eram diferente de qualquer outros 10 minutos.

Chegávamos ao ponto, em frente a um grande muro de uma casa de esquina, ali na Oswald de Andrade com a Av São Paulo. O ponto era identificado por pedaço de madeira enfincado no chão. Isso bastava.

Como um ritual, parávamos em frente ao grande muro, ela me olhava com as vistas cansadas nos óculos de armação grande e sempre percebia alguma sujeirinha em meu rosto. Pasta de dente se fosse de manhã, comida se fosse depois do almoço… E lá ia ela, levava o dedo indicador à boca, lambia e ia certeira tirar aquela malévola sujeira em meu rosto.
Eu reclamava, por reclamar, porque no fundo adorava e esperava aquilo.

Por fim, chegava o esperado ônibus (era o 37? acho que sim). Ah por que era tão bom pegar ônibus
Entrávamos pela porta da frente, como todo mundo, mas ao contrário dos outros, não passávamos pela catraca. Eu achava isso o máximo. Sentávamos nos poucos bancos antes do cobrador e lá fazíamos nossa viagem. Vó Lola olhando pra frente e eu observando pela janela.

O destino? Íamos ao centro de São Bernardo pagar algumas contas na Marechal, passando pela Jurubatuba e pela Faria Lima. Sempre sobrava tempo para uma Coca-Cola (de garrafinha de vidro) em uma padaria qualquer.
Da volta eu não tenho recordações. Mas a ida, essa sim tenho e era mágica.

evandro l! melo

quinta-feira, 28 de março de 2013

Os dias de Páscoa


Penso nos acontecimentos destes 3 dias de Páscoa, da seguinte maneira:

- 6a-feira
Muita confusão, medo, aflição, ondas de terríveis pensamentos inundando a mente de todos.
Só Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) tinham ciência de tudo.

- Sábado
Luto. Muito pesar, muita tristeza e dor. Cada um relembrando os momentos terrivelmente únicos do dia anterior e pensando - "E agora?!"

- Domingo
Espanto e admiração. Adoração e compreensão. Entendimento do que tudo aquilo significara.
Dia de milagre, de transformação. Dia de salvação.

Obrigado Pai, por ser a nossa Páscoa!

Evandro L! Melo
@evandrolmelo
(originalmente escrito e postado em  sexta-feira, 2 de abril de 2010)