segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

laranjeira




É de Deus
que eu seja barro
argila do chão
nas mãos do artesão

É de Deus
que eu seja pó
poeira no vento
na brevidade do tempo

É de Deus
não me ver sozinho
fez pra mim um ninho
com folhas de laranjeira

e é de mim
Te ver assim
graciosa graça.

evandro l! melo
@evandrolmelo

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

envelheço











faz-me companhia o tempo
que outrora passara
em rio, em vento, em pó

faz-me companhia o vento
toma-me pela mão
e minha idade avança

perco a criança
marca-me em linhas gastas
fatiga minhas retinas

de mãos dadas leva-me
o tempo de outros ventos
rumo a luz da escuridão

evandro l! melo
@evandrolmelo

domingo, 13 de janeiro de 2013

o sapo, o cavalo e a capela



É noite, o frio acompanha o vento suave farfalhando as folhas das árvores negras e cumpridas, em movimentos que se repetem.
Lá estou eu, incomodado. Estranho ao lugar mas parecendo já ter estado lá.
A chuva não tarda, logo chega de mansinho, em forma de garôa, e ganha força ao vento, vindo direto em minha direção.
Ando um pouco mais, sem saber o caminho certo, mas sem temer. Apenas um incômodo me acompanha.
Ouço o som de água caindo, se chocando em pedras duras. Logo avisto a cachoeira, uma bela cachoeira de águas espumantes.
O incômodo num ímpeto aumenta e a bexiga dá seu aviso. Preciso me aliviar.
- Não tem ninguém por perto, será aqui mesmo. - penso comigo. E continuo:
- Ei, não pode ser.Estranho. Nunca vim a este lugar e ele não me é estranho. Isso…Isso é um… Será?!Como saber?
Pergunto a um sapo, que sem me dar conta acaba de surgir.
- Ei como saber se isto é um sonho?
- Oras é fácil. - Mal termino de falar e o danado me atira uma pedra. Me acerta a perna. Dói.

Antes que eu chegue à conclusão, a dor me tira daquela floresta.
Me percebo então em um deserto, faz calor e está cercado de areia por todos os lados.
O ar seco me tira o fôlego, me seca a garganta.
- Preciso de água. - É só dizer que o incômodo dá sinal de vida.
Continuo andando e explorando confiante um lugar desconhecido mas ao mesmo tempo natural a mim.
Não demora e a garganta seca novamente. Penso em água. Sinto o incômodo. Droga!
Sigo andando e finalmente encontro algo além do nada. Uma velha casa de madeira, um cavalo amarrado ao chão e uma banheira cheia d'água onde o pangaré se refresca. A bexiga reclama.
- De novo não.
Olho para os lados. Ninguém por perto.
- Ah, vai ser aqui mesmo.
Me preparo e...
- Ei, tem certeza que isso não é um sonho? - Me pergunta o cavalo malhado.
- Como saber? Como saber? - pergunto balançando a perna, impacientemente.
Já devia esperar. Recebo um coice, na outra perna.
- Ai, que dor!

A dor dessa vez me leva de volta pra casa. Me percebo na minha cama. Sim é um sonho. Bons amigos o Sapo e o Cavalo. Me acertaram doído, mas obrigado. Talvez uma coceguinha bastasse, mas obrigado.
Sem perder mais tempo, me levanto e corro ao banheiro. Está diferente, devia ser o sono e a tremenda necessidade de fazer xixi, que aumenta cada vez mais. Não resta mais tempo, mas… Melhor não confiar, aplico um beliscão no braço esquerdo. Forte e giratório.
- Aaaai.
Dói pacas e mesmo com a dor, eu continuo no mesmo cômodo.
- Doeu e continuo aqui. Não é um sonho. - concluo.

Sem pestanejar nem mais um tanto, deixo a bexiga feliz. Olho pra cima curtindo aquele momento bom de deixar a bexiga feliz.
- Mas que estranho, meu banheiro nunca teve o teto da capela Sistina.
- Ah não! Ah não!

Acordo no meu quarto, com três hematomas e todo molhado.

evandro l! melo
@evandrolmelo

ilustração: Uiara Frabetti d'Melo

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

do que não sou












dos poemas que não existem
gosto mais daqueles que não fiz
[com esmero]
deixei-os escapar
livres pensamentos
[vão]
errantes ao esquecimento
como insetos que procuram luz
morrem em claridade

como mãe orgulhosa
me orgulho daquilo que não criei
daquilo que não sou
feito,
eu.

evandro l! melo
@evandrolmelo


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

reunião dos infernos



Estava mais agitado do que o de costume, ansioso, parecia trazer sua grande descoberta.
Não estivera contente com os números - que cresciam, era verdade - de almas conquistadas. Algo lhe dizia que podia ter mais e melhor.

Durante séculos cultivou a estratégia da truculência. Dono de pouca paciência, queria conquistar duma vez. 
"Quanto você quer pela sua alma? Anda, dá seu preço." Ou ainda arrancar-lhes os sonhos à força. Coisa que assustava os viventes.

Foi ali, naquele dia, durante seu banho de lava e enxofre, onde as idéias sempre vinham, que percebeu.
- Cacete! (é o 'eureca!' do diabo).

Chamou uma reunião de emergência com o conselho do Caos que era formado por todo tipo de demônio. Grandes e pequenos. Alados e rastejantes, feios e horrorosos. Todos tomaram seus lugares no Caos, cochichando entre eles sobre a agitação do chefe.

- Meus amigos e companheiros dos infernos! Que a discórdia esteja com vocês. - Iniciou ele de pé na ponta da grande mesa, e prosseguiu -
Pensando em uma maneira mais eficaz de conquistar almas, destruir sonhos e matar a fé, quero lhes dar novas diretrizes e apresentar minha nova estratégia.

Todos lhe observavam na mais intranquila desordem. 
- O que será que vem por aí? - deixou escapar o que tinha a cara de bicho preguiça.

-  Por séculos - continuou - fomos agressivos em nossa abordagem. Ganância fez um bom trabalho comprando almas, mas a preços bastante altos. 
Abordando os seres viventes com "quer vender sua alma?" acaba que assusta a maioria e quem não se assusta acaba cobrando caro demais. Além do que já temos roqueiros demais por aqui.

- Faremos o seguinte. Daremos a eles funções, quaisquer que sejam, e daremos pequenos pagamentos todo mês. Também faremos com que disputem entre si oferecendo prêmios a quem se destacar. Chamaremos isso de Meritocracia. Vaidade e Ambição, é com vocês.

- Mas o que ganhamos com isso chefe? - Quis saber Ambição.

- O business case se mostrou muito mais eficaz com este modelo de negócio. Ao invés de comprar as almas, alugaremos mensalmente. Sai mais barato e assim eles se entregam pra valer, sem melindres. Vão inventar desculpas a si mesmos e trabalharão mais e mais, vendendo fácil o que antes não tinha preço. Mamon vai adorar.

Continuou sua retórica:

- Também percebi que ao querer roubar-lhes a fé e reduzir os sonhos a pó de uma vez, fazia com que estas pestes acabassem buscando mais fé e sonhando mais, mesmo que mediocremente.
Portanto, não lhes tire tudo de uma vez, são sensíveis. Vão notar e chorar, sentir falta, abrir o berreiro. Ao invés disso Medo, vá tirando seus sonhos aos poucos; Dúvida, vá minando a fé deles de gota em gota, sem pressa, e logo teremos adquirido mais uma alma. 

- Os tempos são outros, temos que nos reinventar se quisermos conquistar essas almas. - Arremeteu orgulhoso.

Um mão se levanta timidamente lá atrás.
- Pois não? - perguntou Lúcifer, o chefe.
- Mas e aquele papo, aquela… aquela tal de Graça? Não pode acabar com esse negócio de méritos? 

Ele observava carrancudo o demoniozinho que perguntava.

- E também não pode, a tal da Graça se juntar à Esperança e insistir em encher os viventes com fé e sonhos? - finalizou o demoniosinho.

A empolgação havia deixado seu semblante. Levando a cabeça à mesa num movimento desanimado, dá um bufada:

- Demônios sinceros, quem precisa deles?

***

evandro l! melo

sábado, 29 de dezembro de 2012

nuvens


há poemas que são como nuvens. agrupam-se em palavras no pensamento.
ameaçam chover poesia mas daí bate um vento de distração e a desfaz toda.
não chove idéias nem ficam registros, mas por um instante existiu e se exibiu.


evandro l! melo
@evandrolmelo

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

eco...eco...eco

-Palavras, lavras, avras...
Repetiu o Eco.
- Eco, eco, eco...
(bom vou falar baixinho para o Eco não mais incomodar).